Era carnaval nos anos 80. Estávamos em mais um retiro, se não me engano em Tomascar. As passagens por aquele colégio que nos servia de refúgio nos quatro dias de folia deixaram saudade. Os banhos de cachoeira (banhos mesmo, porque não havia água encanada e muito menos chuveiro), o cheiro de mato e a simplicidade das pessoas vão ficar para sempre em nossa memória. Outras lembranças também vão custar a sair de nossas mentes. Recordações que nos fazem rir quando nos reunimos para contar histórias ou até mesmo sozinhos, quando esses fatos são rebuscados e revividos.
Uma das histórias mais engraçadas desse retiro foi a do convite que recebemos para um aniversário de 15 anos, que iria acontecer relativamente perto de onde estávamos hospedados. Ou melhor, Rev. João recebeu o convite e nos convocou para participar do culto que haveria ali. E lá fomos nós. Catamos nas mochilas nossas roupinhas “mais ou menos” e partimos para o culto e para a festa. Nos retiros dirigidos pelo Rev. João sempre tínhamos que ir à igreja; por isso levávamos calças, além das bermudas, e nas bagagens das meninas não podiam faltar saias, blusas e vestidos. O caminho era bem escuro, do tipo “lá vai um”, e éramos guiados por uma pessoa do local, que carregava uma lamparina de querosene — que não ajudava muito.
Depois de atravessar alguns riachos e de as meninas vencerem o medo dos pequenos animais do caminho, chegamos ao local da reunião. A princípio não havia quase ninguém, só muito mato por todo lado. De repente começou a aparecer gente de todos os cantos, saindo não se sabe de onde, gente simples, de roça, gente muito boa. O culto foi ótimo. Cantamos, ouvimos a pregação, cantamos de novo... e chegou a tão esperada hora do bolo, pela qual nossas barrigas roncantes tanto ansiavam.
Mas... onde estava o bolo? O culto acabou, e nada. Nem uns salgadinhos para enganar a fome, que àquele momento já era desesperadora. Conversa vem, conversa vai, e cadê o bolo? Até que, em meio à escuridão, surge um senhor, meio cambaleante, carregando algo na cabeça. Quando ele chegou mais perto pudemos perceber que ele trazia o tão esperado bolo. Nossas barrigas quase saltaram de alegria. Finalmente o bolo estava chegando. Comemos com muita vontade, e algumas pessoas que levaram máquinas fotográficas ainda tiraram fotos do bolo e da aniversariante, já que não havia fotógrafo para registrar a festa.
Voltamos para o colégio, saciados e felizes, rindo muito da história que nos contaram para justificar a demora daquilo que é sempre o melhor da festa: o senhor que trouxe o bolo era o pai da aniversariante, que por sinal não era evangélico. A demora foi por conta de suas paradas pelo caminho para tomar “umas e outras”. Até hoje ninguém sabe como ele conseguiu levar o bolo na cabeça sem nenhum acidente.
Joel Vasconcellos

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