sábado, 6 de agosto de 2011

Vidas em Atas



É comum na Igreja participarmos de reuniões diversas, seja na individualidade de cada Secretaria ou numa Assembleia. Mas, todas, apesar de suas especificidades, estão sob a condição de decidir ou apontar direções para a solução de um problema, para a comunicação de um ato, para constatação de um fato que ocorreu.

É fácil notar alguém sentado no canto da mesa, com um livro na mão, a registrar o que está sendo realizado. Aparentemente uma tarefa fácil, porém não há uma pessoa que, ao ser chamada para fazer um registro, tenha pensando duas, ou muito mais vezes, talvez pela simples máxima: “as palavras ditas vão com o vento, mas as transcritas se perpetuam pela eternidade”. Não existe exemplo melhor para comprovar tal afirmação do que a existência das escrituras.

E é neste ensejo que se materializa o registro em atas. Na Roma antiga, por exemplo, as declarações de concordância e aceitação de um termo de um contrato eram formalizadas em uma cerimônia chamada “manufirmatio”. Depois da leitura executada pelo notarius, as partes que não sabiam escrever passavam a mão pelo pergaminho, em sinal de sua aceitação e concordância, demonstrando-se assim que a constatação do fato era mais importante do que a própria transcrição da vontade das partes. 

As atas têm como primeira finalidade documentar fatos, surgindo assim pela necessidade do uso de escritos firmados por uma autoridade, ou seja, sob a fé pública, para que seu conteúdo obtenha crédito. Narrar um fato é transcrevê-lo de acordo com uma apreensão sensorial do que se vê e do que se ouve. Um documento de alto valor jurídico para ser reconhecido deve se pautar pela imparcialidade e neutralidade, sem emitir juízo de valor. Estabelecer uma palavra não condizente com determinada situação pode modificar um contexto e ser pretexto para se criar uma visão um tanto tendenciosa.

Assim, as atas produzidas em uma comunidade, principalmente as eclesiásticas, além de serem um documento que expressa uma veracidade, afirmam um compromisso e são responsáveis pelas pessoas cujos nomes ali estão “atados”. A primeira ata do Conselho de nossa Igreja, datada de 15 de agosto de 1956, traz em letras perfeitamente desenhadas, sob a escrita do presidente Trasilbo Filgueiras, mais do que um registro, uma escolha de um modo de viver.  Afinal, como muito bem fala a sua anotação, “...as dezessete horas, do dia quinze de agosto de mil novecentos e cinqüenta e seis, na sede da Igreja, à rua Nestor Pinto Alves, onde já se acha edificado um confortável templo, reuniu-se a Comissão organizadora...” Em outro momento lemos que “a reunião foi aberta com uma oração” e depois a ata se dedica a explicitar os quarenta e sete maiores que trazem suas cartas de transferência da Igreja de Pachecos para se tornarem membros fundadores de nossa Igreja. Entre o “sair de lá e o ficar aqui” está a permissão, o controle e o ide de Deus. Vale registrar que poderia ter sido escrito, por exemplo, “onde se acha um pequeno templo”, mas o uso do termo “confortável” para caracterizá-lo não foi uma simples escolha de um adjetivo, pois significa dizer: aqui estamos bem, aqui é agradável, aqui é onde estamos e onde nos parece caloroso ficar.  Lugar de permanência deles, e de tantos outros...

O importante é saber que uma fonte documental sempre fala, seja por um traço mais forte, por uma palavra mais simples ou rebuscada, uma emocionada ou mais dura, por uma data, por um nome escrito ou mesmo pela ausência de algum que deveria está lá, mas não se fez presente. E que é mais do que recordações de um passado, é um arquivo de vidas que se ataram diante de um objetivo, cujo registro se perpetua em uma memória que, apesar de coletiva, se individualiza em todos nós, nos impulsionando a seguir e registrar em atas futuras a nossa história.

Carla Souza de Almeida dos Anjos 

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